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AS CÂMERAS DO BIGBROTHER

Façamos uma viagem imaginária e nos coloquemos dentro da casa do Bigbrother. As câmeras estão por todos os lados, flagrando tudo, sem a menor censura. Nesta ilha televisual, todos nós inseridos, confinados. Todas as nossas ações sendo monitoradas, as palavras captadas por potentes microfones...

Dentro deste cenário, será que temos a coragem de revelar realmente quem somos? Os nossos defeitos? Nossas intenções? Nosso estilo de jogo? Penso que não. Sendo vigiados o tempo todo, a tendência natural é dissimular, ficarmos superficiais. E até conseguimos, porque as aparências ainda enganam bem.

Mas, e se a casa do Bigbrother fosse o nosso coração? Como iríamos reagir? Ali não seria possível esconder nada. Os mais secretos pensamentos, as mais veladas intenções passariam a ser de conhecimento público, sem cortes. Será que continuaríamos com a mesma pose? Também penso que não. A fama de muitos cairia por terra, para decepção de todos.

As câmeras revelariam que muitos de nós que posamos de bondosos, na verdade não passamos de caridosos interesseiros, aplicando as técnicas do marketing pessoal. Nós, os arautos da verdade, seríamos desmascarados, porque as mentiras apareceriam revelando aspectos sórdidos da nossa personalidade. Mentiras que usamos para justificar comportamentos e atitudes. Alguns dos que se dizem discípulos do amor, perderiam o direito de usar essa denominação, já que um zoom mostraria que não são capazes de praticá-lo consigo mesmos e com os seus próximos mais próximos. Os pacíficos, pobres coitados, estariam em maus lençóis, pois as guerrilhas que promovem com palavras e gestos ganhariam a telinha. Os que vivem falando de Jesus e dos seus ensinamentos, as câmeras exporiam que, muitos deles, têm fé apenas de palavras e não praticam o que dizem. Verdadeiros hipócritas hiper-modernos.

Nós que nos apressamos em julgar e condenar os atos e erros alheios, ficaríamos envergonhados com as novidades que emergiriam. O Bigbrohter iria mostrar que não somos tão certinhos assim. Também possuimos ciscos nos olhos e, portanto, inaptos para julgar e condenar as atitudes dos outros. Os detalhes diriam que nossa pureza é apenas ilusão de ótica e sempre estamos empoeirados.

Nada ficaria escondido. Até mesmo os nossos pensamentos mais íntimos se tornariam públicos, as nossas motivações mais secretas, os porquês verdadeiros do nosso ser. As nossas máscaras cairiam e ficaríamos de cara limpa diante de todos. Haveria surpresas, fatalmente. As palavras que falamos, querendo que signifiquem exatamente o contrário, como os elogios falsos que fazemos para agradar aos outros e os pareceres abonadores das iniciativas daqueles que pedem a nossa opinião sincera. Tudo diante das câmeras condenadoras do BigBrother interior.

Aqueles falsos testemunhos, as calúnias que levantamos quando as pessoas estão ausentes. Sim, quando estão distantes, porque quando estão ao nosso lado demonstramos que só possuem qualidades e até incentivamos suas atitudes, passando-nos por amigos do peito. Ah, quanta coisa as câmeras mostrariam ao mundo...

A raiva, o ódio, o rancor, a mesquinhez, o egoísmo, a ganância, os desejos de diminuir os nossos semelhantes, os venenos que destilamos contra os que nos ameaçam, aqueles dos quais não gostamos e queremos que vão pra onde Judas perdeu as botas, os sentimentos mais vis que temos, os falsos moralismos.

Pois é, esse não é um exercício de quem não tem o que inventar. É algo real. As câmeras do Bigbrother existem e filmam as coisas que acontecem no nosso íntimo, no coração, na alma. Não existem edições ou cortes das partes não-recomendáveis, tudo é gravado. Quem observa tudo isso é Deus. Ele é o telespectador e não perde absolutamente nada do que acontece. Até conseguimos enganar as pessoas, porque a maioria delas ficam nas aparências de nossos atos. Mas Deus não. Ele vê o coração e é o que acontece lá que importa. As superficialidades, as encenações, as máscaras, não têm valor algum.

É bom prestarmos mais atenção nas razões que trazemos no coração. Razões que a própria razão desconhece. Por elas é que seremos julgados. Um dia, lá em cima, todas as fitas do nosso Bigbrother pessoal serão exibidas e aí? Passaremos pelo paredão celeste?

Geraldo Anastácio.


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Última atualização: 21/01/2005 11:15:23